Dez anos depois de matar o marido, Elize Matsunaga tenta reorganizar sua vida

Antes que isso aconteça, ela põe a vida em dia. Recentemente renovou a carteira de habilitação. Aproveita as “saidinhas” para regularizar pendências bancárias, impostos e não quer ficar com o nome sujo. Sonha em abrir a própria empresa e costurar roupas para pets.

O carro, uma Mitsubishi Pajero TR4 2010 verde, usado no dia do crime para espalhar as partes do corpo do marido por uma estrada de Cotia, na Grande São Paulo, está há dez anos parado na garagem. Os débitos de IPVA foram quitados e ela espera agora vendê-lo.

O maior sonho de Elize, no entanto, não é somente regularizar a vida para deixar a prisão. Sua grande motivação é poder rever a filha, hoje com 11 anos. Em setembro do ano passado, Elize deixou a penitenciária com uma toalha branca bordada por ela, à mão, com a frase “minha filha, te amarei além da vida”.

“Ela bordou com muito carinho. Começou escrevendo cartas para a filha e tenta de algum jeito se comunicar com ela. Mas é discreta, tem respeito à filha e à família do Marcos. Tudo o que ela faz é voltado para a filha”, conta a advogada cível de Elize, Juliana Fincatti Santoro.

Elize Matsunaga está prestes a deixar a penitenciária de Tremembé (Reprodução / Arquivo pessoal)

Juliana foi professora de direito civil de Elize por cinco anos quando ela se preparava para ser advogada. Ela é casada com Luciano Santoro, que também lecionou, por um ano, direito penal à então aluna da faculdade. Desde o crime, os dois acompanham os passos dela.

“Ela se arrepende muito do que fez, não porque foi punida. Ela se arrepende por ter tirado o pai da filha dela. Assim como ela cresceu sem o pai, fez a filha dela também crescer sem pai. Esse é o maior arrependimento dela”, revela o advogado criminalista Luciano Santoro.

Há barreiras que a impedem de reencontrar a filha quando estiver em liberdade. Meses após a morte de Marcos, os Matsunaga entraram com uma ação de destituição do poder familiar. Isso significaria quebrar de vez o vínculo de mãe e filha e até remover o nome de Elize da certidão de nascimento.

O processo se arrasta há uma década, ainda sem previsão para uma sentença. São três laudos periciais com a participação de Elize, além de outros externos, contratados pela família Matsunaga e realizados por profissionais renomados, sem entrevista com a condenada. O intuito, segundo os advogados, é provar que ela seria desequilibrada, psicopata e, assim, não teria condições de exercer a maternidade.

“Ela lida com pesar e muito medo porque é um processo bastante grave você apagar o vínculo jurídico entre mãe e filha, embora ela saiba que o vínculo biológico jamais vai ser apagado. É muito importante essa filha para ela, é a razão de ela viver, de enfrentar tudo isso, suportar a prisão e buscar se reerguer na vida”, relata a advogada.

A garota vive bem com os avós paternos, que estão com 86 anos, e não tem nenhum contato com os familiares de Elize e muito menos com a mãe, que nem sequer sabe a aparência da filha. Nem mesmo por foto. O temor da família Matsunaga é que ela procure a criança sem consentimento.

Elize só viu a filha quando a bebê tinha 1 ano (Reprodução / Arquivo pessoal)

Para comprovar a paternidade, na época foi feito um exame de DNA. Apenas nos três primeiros meses após o crime, a bebê ficou aos cuidados da tia de Elize, conhecida como Rose.

“A consequência jurídica desse processo é deixar a criança sem pai nem mãe, o que, a nosso ver, é bastante prejudicial porque ela tem direito constitucional à própria história, ao convívio familiar. Houve uma tragédia nessa família, mas houve também um movimento da família do Marcos para apagar a existência desse crime da história da criança”, destaca Juliana Fincatti.

No futuro, a filha, que já não tem o pai, ficaria também sem poder contar com a mãe para fins sucessórios, exercício de guarda, segurança e educação. Quando completar 18 anos, poderá também decidir se quer saber de sua história e morar fora do país.

Segundo a defesa, Elize promete respeitar o desejo da filha, mesmo que ela não queira contato com a mãe. Mas vai continuar tentando um reencontro, via judicial, com visita assistida e supervisionada para preservar a criança.

A advogada Patrícia Kaddissi, que representa a família Matsunaga, foi procurada pelo R7, mas afirmou que não tinha interesse em comentar o assunto.

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