Wilson Aquino*
É impressionante como os valores morais mais elevados do indivíduo são, coletivamente, deixados de lado justamente quando a nação mais precisa deles: no período em que o país inteiro se prepara para definir, nas urnas, quem conduzirá os seus destinos. Interesses próprios, econômicos ou ideológicos, somados à simples ignorância ou às ações de grupos criados estrategicamente para manipular a opinião das pessoas, fazem com que muitos fiquem cegos na defesa de candidatos que nunca deveriam ser eleitos, quer pela incompetência para o cargo que pretendem, quer pelas comprovações de envolvimento em atos de corrupção, peculato, desvio de dinheiro público ou outras mazelas.
A essa manipulação somou-se, nos últimos anos, uma verdadeira indústria da desinformação. Notícias falsas, vídeos cortados fora de contexto, perfis artificiais e mensagens emocionais são produzidos em escala e distribuídos por aplicativos de mensagens com um único objetivo: confundir, dividir e capturar o voto do cidadão. Quem não se informa em fontes sérias acaba votando em ficções e defendendo, com unhas e dentes, personagens que só existem no roteiro de quem lucra com a mentira.
Mas há algo mais profundo em jogo. A política deixou de ser tratada como a gestão da coisa pública e passou a ser vivida como uma partida de futebol. O eleitor virou torcedor: não torce mais para que o país vença; torce para que o seu time ganhe. E, na lógica da torcida, o adversário não é o candidato desonesto, é o outro torcedor. Por isso a condenação judicial vira "perseguição", o desvio de recursos vira "coisa do passado", a incompetência vira "má sorte". A lealdade ao grupo substitui o juízo moral, e a pessoa de boa índole acaba idolatrando exatamente aqueles que, em qualquer outra circunstância da vida, repudiaria.
É lamentável assistir, todos os dias, pessoas respeitadas, de boa família e de boa índole, defendendo candidatos condenados pelos mais variados crimes contra o patrimônio público. Dizem odiar a corrupção, no abstrato. Basta, porém, que o corrupto vista a sua camisa para que o crime vire detalhe e a crítica vire injustiça. Essa é, talvez, a forma mais perigosa de desonestidade: a que praticamos contra nós mesmos, quando conhecemos a verdade e fingimos não vê-la para não ter de dar razão ao outro lado.
O Brasil, insisto mais uma vez, como tenho feito nestas colunas, é riquíssimo em todos os aspectos: terras férteis, minerais abundantes, água doce em abundância, clima favorável para até três safras por ano, belezas naturais invejadas pelo mundo inteiro, grandes extensões territoriais e um povo trabalhador. E, no entanto, não decola. Com muito menos condições do que as nossas, nações asiáticas tornaram-se economias de primeiro mundo e passaram a oferecer qualidade de vida superior à do nosso povo.
A diferença não está no solo nem no clima: está na seriedade com que escolhem os governantes e na valorização da educação, do mérito e do dinheiro público. Aqui, seguimos acumulando prejuízos bilionários nas contas públicas, uma dívida que já supera R$ 11 trilhões e o pagamento de mais de R$ 1,1 trilhão por ano somente de juros, o equivalente a quase 9% de tudo o que o país produz. São recursos que não se transformam em escolas, hospitais, segurança ou estradas: evaporam para sustentar uma dívida contraída, em boa medida, pela má gestão e pela roubalheira de décadas.
Diante desse quadro, como pode o eleitor ainda torcer e fazer campanha pela permanência de quem afundou o país? Como deixar o bom senso de lado, abrir mão da própria opinião e renunciar à honestidade consigo mesmo em nome de uma bandeira ideológica? O voto não é apenas um direito: é um ato moral. Quem elege um desonesto ou um incompetente, e quem, sabendo de tudo, faz campanha por ele, assume a sua parcela de responsabilidade pelo futuro que todos vamos colher. A omissão também é uma escolha. O cidadão honesto não pode se dar ao luxo da neutralidade diante do erro comprovado: deveria, isso sim, engrossar ativamente a corrente contra a eleição de todos aqueles que demonstraram ser ineficientes no ofício que almejam ou que a Justiça já condenou por atos de corrupção.
Não por acaso, a mais antiga literatura de sabedoria da humanidade já tratava do assunto. Milhares de anos antes das pesquisas de intenção de voto, o livro dos Provérbios advertia: "Quando os justos governam, o povo se alegra; quando o ímpio domina, o povo geme" (Provérbios 29:2). Não é difícil reconhecer, no gemido do povo brasileiro diante da conta de luz, do preço da comida e da insegurança, o cumprimento literal dessa sentença. E foi o próprio Deus quem, por intermédio de Jetro, sogro de Moisés, deixou registrado o perfil do governante ideal: "Escolhe homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza" (Êxodo 18:21). Capazes, honestos e avessos ao dinheiro fácil: eis o currículo mínimo que exigimos de quem administra a nossa casa. Por que exigiríamos menos de quem administra a casa de todos nós?
Na reta final desta eleição, a poucos dias do voto decisivo, vale repetir: a urna é inviolável, mas a consciência não. Na cabine de votação, cada um de nós se encontra consigo mesmo, com os valores que diz professar, com os filhos que diz amar, com o país que diz querer deixar de herança. Que nesse encontro o bom senso vença a teimosia, e que a honestidade fale mais alto do que a ideologia. O Brasil não precisa de milagres. Precisa de eleitores honestos consigo mesmos. E isso ainda depende, felizmente, de cada um de nós.
*Jornalista, Professor e Escritor