Enquanto campanhas são repetidas e discursos oficiais exaltam investimentos, a realidade mostra que Mato Grosso do Sul continua figurando entre os estados mais violentos do Brasil para as mulheres.
A divulgação do Anuário Brasileiro da Segurança Pública trouxe mais uma vez um retrato preocupante para Mato Grosso do Sul. O Estado ocupa a quarta posição nacional em casos de feminicídio, um dado que deveria provocar indignação, mobilização e mudanças profundas na condução das políticas públicas voltadas à proteção da mulher.
Em vez disso, o que se observa é a repetição de um roteiro já conhecido: após cada crime, surgem notas de pesar, promessas de reforço na segurança, reuniões institucionais e campanhas de conscientização. Passado o impacto inicial, porém, os feminicídios continuam acontecendo.
Os números falam por si. Enquanto o Brasil registrou aumento de 4% nos feminicídios em 2025, Mato Grosso do Sul apresentou crescimento de 10,5%. O Estado, que deveria servir de exemplo no enfrentamento à violência doméstica por abrigar estruturas como a Casa da Mulher Brasileira, continua acumulando indicadores incompatíveis com o discurso oficial.
A pergunta que precisa ser respondida pelo Governo do Estado é simples: por que, apesar dos investimentos anunciados e das estruturas existentes, Mato Grosso do Sul permanece entre os líderes nacionais em feminicídio?
Não basta afirmar que a violência doméstica é um problema cultural ou exclusivamente familiar. O feminicídio é também um problema de política pública. Cabe ao Estado prevenir, proteger, monitorar e agir antes que a violência termine em morte.
Os assassinatos registrados ao longo de 2026 demonstram que o sistema continua chegando tarde demais. Em praticamente todos os meses do ano, uma nova mulher perdeu a vida em diferentes regiões do Estado. Cada nome acrescentado à estatística representa uma falha coletiva que não pode ser tratada apenas como mais um número.
O caso da jornalista Vanessa Ricarte, morto dentro da própria residência, simbolizou essa tragédia. A ampla repercussão nacional gerou comoção, discursos e promessas de aperfeiçoamento da rede de proteção. No entanto, meses depois, outras mulheres continuaram sendo assassinadas, demonstrando que a resposta estatal ainda não conseguiu alterar significativamente essa realidade.
É evidente que Mato Grosso do Sul possui servidores comprometidos, delegadas, policiais, promotores, defensores públicos, magistrados e profissionais da assistência social que trabalham diariamente para salvar vidas. A crítica, portanto, não se dirige aos agentes que atuam na linha de frente, mas à efetividade das políticas públicas e à capacidade de gestão para transformar estruturas existentes em resultados concretos.
Se o Estado permanece entre os campeões do feminicídio, algo precisa ser revisto. É necessário ampliar o atendimento especializado para o interior, fortalecer o acompanhamento das mulheres sob medidas protetivas, integrar bancos de dados, investir em inteligência policial, acelerar respostas judiciais quando cabíveis e criar mecanismos permanentes de avaliação das ações governamentais.
Também é preciso abandonar a lógica de administrar crises apenas depois que elas ganham repercussão. A prevenção deve ser prioridade diária, e não apenas tema de campanhas institucionais ou discursos em datas simbólicas.
Governar também significa assumir responsabilidade pelos indicadores. Quando os índices melhoram, o governo costuma apresentar os resultados como fruto de sua gestão. Da mesma forma, quando Mato Grosso do Sul figura entre os estados com maior incidência de feminicídios, é legítimo que a sociedade cobre explicações, metas claras e resultados mensuráveis.
A população não espera apenas pronunciamentos oficiais após cada tragédia. Espera políticas públicas capazes de impedir que novas mulheres sejam assassinadas.
Enquanto o Estado continuar ocupando posição de destaque nesse triste ranking nacional, não haverá propaganda institucional suficiente para esconder a realidade. O verdadeiro indicador de sucesso será o dia em que Mato Grosso do Sul deixar de ser notícia pela quantidade de mulheres mortas e passar a ser referência nacional pela eficácia na proteção de suas cidadãs.







