Campo Grande, 4 de junho de 2026

Dinheiro público jogado no ferro-velho: Prefeitura torra R$ 900 mil em usina abandonada e vende equipamento no prejuízo

O que deveria representar economia, autonomia e avanço na infraestrutura acabou se transformando em mais um retrato do descaso com o dinheiro público em Mato Grosso do Sul. Em Rio Brilhante, a prefeitura gastou cerca de R$ 900 mil na compra de uma usina de asfalto, anunciou modernização, prometeu redução de custos e eficiência nas obras, mas o equipamento jamais entrou em funcionamento.

Quatro anos depois, a chamada “solução para pavimentação própria” virou símbolo de desperdício administrativo, falta de planejamento e possível irresponsabilidade na gestão dos recursos da população.

A usina, adquirida em 2021 durante a administração do prefeito Lucas Foroni (PP), permaneceu abandonada no Parque Industrial da cidade, exposta ao tempo, coberta apenas por lonas improvisadas, enquanto peças enferrujavam espalhadas em terrenos distintos. O cenário foi constatado inclusive em vistoria técnica realizada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul.

O mais alarmante é que o próprio município admitiu posteriormente que não havia sequer estudo adequado sobre a viabilidade operacional do equipamento antes da compra.

Na prática, a prefeitura comprou primeiro e descobriu depois que não tinha condições de operar a usina.

A alegação apresentada ao Ministério Público foi de que não conseguiu adquirir insumos necessários para funcionamento, como massa asfáltica, ligantes e agregados, porque os processos licitatórios fracassaram. Porém, a própria Procuradoria-Geral do Município reconheceu oficialmente que essa análise de mercado deveria ter sido feita ainda no estudo técnico preliminar obrigatório antes da aquisição.

Ou seja, faltou planejamento básico.

Enquanto isso, quase R$ 1 milhão do contribuinte ficou literalmente parado e se deteriorando ao relento durante anos.

A situação se torna ainda mais controversa porque, após todo o abandono, a usina acabou sendo leiloada em abril de 2025 por R$ 850 mil, valor inferior ao montante originalmente pago pela prefeitura. Houve apenas um único interessado e apenas um lance mínimo acima do valor estipulado.

A empresa vencedora atua justamente no setor de usinagem de asfalto e possui contratos milionários com a própria Prefeitura de Rio Brilhante. Segundo informações divulgadas, empresas ligadas ao mesmo grupo empresarial acumulam contratos que ultrapassam R$ 16 milhões com o município e mais de R$ 150 milhões junto ao Governo do Estado.

O caso levanta questionamentos inevitáveis sobre gestão pública, critérios de planejamento e responsabilidade administrativa. Afinal, como uma prefeitura investe quase R$ 1 milhão em um equipamento sem verificar previamente se haveria condições reais de funcionamento?

Mais grave ainda é observar que o equipamento ficou se deteriorando durante anos enquanto a população continua enfrentando problemas estruturais, ruas danificadas e demandas básicas em diversos setores do município.

Em agosto de 2024, o Ministério Público firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o prefeito Lucas Foroni, determinando medidas para conservação do equipamento, análise de viabilidade e abertura de sindicância para apurar responsabilidades dos agentes envolvidos.

Apesar disso, o desfecho foi a venda do patrimônio público abaixo do valor investido, consolidando um prejuízo financeiro que, mais uma vez, recai sobre o bolso da população.

O episódio reforça uma crítica cada vez mais frequente entre moradores e especialistas em gestão pública: muitos gestores seguem tratando o dinheiro público sem o mesmo rigor e responsabilidade que qualquer cidadão teria ao administrar seus próprios recursos.

Por Wander Lopes

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