Com a aproximação das eleições de 2026, um fenômeno curioso volta a acontecer nos bairros de Campo Grande: políticos que passaram meses — ou anos — em silêncio reaparecem como num passe de mágica.
É como se brotassem do chão, saíssem do ralo das fazendas, surgissem atrás das porteiras e até reaparecessem nos grupos de WhatsApp da família. De repente, aquele vereador sumido lembra o nome do cachorro da dona Maria, o deputado estadual reaprende o caminho do bairro e o assessor descobre onde fica o Aero Rancho no mapa.
No bairro Aero Rancho, dona Maria já está preparada para a temporada eleitoral.
— “Aqui em casa já deixei o pó de café separado. Vou coar na cueca do meu marido e servir pros visitantes políticos e assessores de plantão”, disparou, aos risos, enquanto varria a calçada.
Segundo ela, o movimento é sempre o mesmo: carro adesivado, sorriso ensaiado, promessa reciclada e aquele velho discurso de “agora vai”.
“Na última eleição falaram que iam arrumar o asfalto, melhorar o posto de saúde, resolver a iluminação. Agora voltam com a mesma conversa, só mudou a foto do santinho”, completou.
Nos bairros mais afastados, a cena se repete. Candidatos que nunca participaram de uma reunião comunitária agora disputam espaço em porta de mercado, feira e igreja. É a temporada oficial do abraço apertado, da selfie estratégica e da visita inesperada no fim da tarde.
Especialistas em comportamento eleitoral dizem que essa fase é conhecida como “síndrome da memória repentina”: o político redescobre o povo, o povo redescobre o político — e ambos fingem que está tudo normal.
Enquanto isso, o eleitor observa. Alguns escutam, outros cobram, e há aqueles que, como dona Maria, preferem usar o humor como forma de protesto.
“Se for pra aparecer só em época de voto, pelo menos que tome café forte”, concluiu ela, segurando o bule.
Afinal, em 2026, mais do que santinho e promessa, o que o eleitor quer mesmo é respeito, presença constante e compromisso que dure além do período eleitoral.
Porque sair do ralo é fácil. Difícil é permanecer ao lado da população depois que as urnas fecham.







